Lusco-Fusco

O senhor sabe o que é o silêncio? É a gente mesmo, demais. Com essa reflexão aparentemente simplória, e ao mesmo tempo profundamente filosófica, Riobaldo Tatarana, em volteios, tenta entender se fez ou não o pacto com o demônio. E completa: As coisas assim a gente mesmo não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas![1]

Algo dessa atmosfera está presente nas pinturas de Ana Calzavara. Delicadas telas, onde cenas de beira de estrada aparecem em recortes estranhos, muitas vezes mirando o alto, como que em olhares captados em movimento, pela janela do carro. Daí o excesso de céu, e as cenas em ângulos nem sempre cabendo no esquadro, nem situadas a prumo, como que deslizando, escapando do controle. O que é que está sendo retratado aqui? Espaços vazios? Paisagens desoladas? A sensação de um trajeto? O sono, ou o sonho de quem (uma criança?) dorme no carro, no banco de trás? Um estado de vigília?

A ambiência de lusco-fusco, tão presente nessas pinturas, indica tanto a predominância tonal das composições, quanto a veladura que encobre a definição das coisas, tornando-as misteriosas. Mas se nas telas de Armando Reverón, por exemplo, uma veladura semelhante se deve à exposição excessiva do olhar do pintor ao sol inclemente, aqui ela parece decorrer, ao contrário, da luz noturna, lunar, mais metafísica, portanto. Produzidas em um momento histórico muito agônico no Brasil e no mundo, essas telas de Ana Calzavara buscam uma quietude, uma não assertividade, uma suspensão de juízos. Miram, por vezes, algo distante, talvez escondido no horizonte. Um respiro diante da premência opressiva do presente.

Descrevendo uma noite epifânica ocorrida em Bolonha, em 1941, o ainda jovem Pasolini, estudante de literatura, vê nos pequenos bosques de fogo[2] formados por um enxame de vagalumes, na noite sem lua, o símbolo do amor e da amizade, por oposição à vigilância opressiva da guerra, que estava, então, no seu apogeu. Vagalumes ainda vivos e visíveis, mesmo sob o fascismo, com seu brilho intermitente, hesitante e pungente, como a arte. Algo semelhante ao lusco-fusco dessas pinturas de Ana, com seu brilho míope e borrado em céus que não sabemos se anoitecem ou amanhecem, num país no qual o chão afunda. Talvez o que nos resta seja mesmo olhar para cima, ou para longe. Nessas pinturas, o olhar procura escape, e erra. A pincelada rápida, por outro lado, denota falta de paciência. Quanto tempo ainda teremos? A arte não responde. Mas pergunta.

 

[1] João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 438.

[2] Pier Paolo Pasolini, Lettere, 1940-1954, apud Georges Didi-Huberman, Sobrevivência dos vagalumes. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2014, p. 19.

Guilherme Wisnik